14 de outubro de 2026

Da Túnica de 1834 ao Balandrau Moderno: A História e os Limites Litúrgicos no REAA

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Da Túnica de 1834 ao Balandrau Moderno: A História e os Limites Litúrgicos no REAA

Presente na rotina de trabalhos das oficinas brasileiras, a utilização do balandrau preto suscita dúvidas frequentes entre pesquisadores e membros da Ordem sobre o seu estatuto litúrgico, confrontando prescrições cerimoniais antigas com as normas vigentes nas potências regulares.

O debate ganhou densidade a partir do exame de uma passagem documental preservada no raríssimo Guia dos Maçons Escocezes, impresso no Rio de Janeiro em 1834 pela Typographia Seignot-Plancher, reconhecido pela historiografia maçônica como a primeira tradução em língua portuguesa dos rituais simbólicos do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA).

Na página 74 da obra, que abre as instruções essenciais da Câmara do Meio, o texto descreve a ambientação fúnebre do grau de Mestre e consigna expressamente que o “verdadeiro vestido é uma tunica preta em forma de dominó, chapéo á Henrique IV. e penacho branco”. O mesmo parágrafo determina que o dirigente dos trabalhos se revista de uma capa cerimonial com choradeiras.

Trecho do livro “Guia dos Maçons Escocezes” de 1834

 

Registro Histórico Original (1834)
“Todos os Mestres devem estar vestidos de preto, com chapéo desabado e fumo comprido; luvas brancas, o avental do gráo e fita azul. O verdadeiro vestido é uma tunica preta em forma de dominó, chapéo á Henrique IV. e penacho branco. O Ven… deve ter mais uma capa grande com choradeiras.”

A leitura descontextualizada desse registro suscita por vezes a ilação de que a túnica talar constituiria a vestimenta primordial e autossuficiente do Mestre Maçom. Contudo, uma análise filológica e histórica detalhada evidencia que o ritual de 1834 traduzia a tradição do Guide des Maçons Écossais, elaborado em Paris no início do século XIX, período no qual a liturgia escocesa utilizava intensa caracterização cenográfica para a dramatização da lenda de Hiram Abif.

O vocábulo utilizado na gênese do rito era o dominó, veste talar ampla com capuz, habitual nas solenidades de luto cortesão europeu e em representações cerimoniais, acompanhada de chapéu de abas desabadas e penacho branco. Tratava-se de um figurino litúrgico e teatral concebido especificamente para a encenação da perda e da consternação na Câmara do Meio, não de uma vestimenta de uso rotineiro nos trabalhos administrativos das oficinas.

A genealogia do balandrau na tradição ibérica e brasileira

Historicamente, o termo balandrau possui raízes no latim tardio e no português medieval, designando uma capa talar fechada na frente, frequentemente dotada de capuz e mangas amplas. Era o traje protetor utilizado por viajantes, confrarias religiosas leigas, magistrados e corporações de ofício durante longos deslocamentos e cerimônias solenes de sepultamento, destinado a resguardar a roupa comum das intempéries da estrada.

Na Maçonaria, pesquisadores como José Castellani documentaram que o balandrau com essas características não fazia parte do cotidiano das lojas da Inglaterra ou da França no século XIX. O termo vernáculo balandrau sequer constava nos primeiros rituais escoceses editados no Brasil. Sua inclusão no vocabulário oficial da ordem brasileira consolidou-se apenas no século XX, sob a influência dos costumes das irmandades leigas do período colonial e imperial e, de forma categórica, na reforma ritualística de 1928 efetuada pelo Supremo Conselho do Grau 33 do REAA, quando se admitiu que, a rigor, o traje dos mestres poderia ser um balandrau preto comprido.

Essa assimilação atendeu a contingências climáticas, geográficas e sociais próprias do Brasil. O balandrau tornou-se um equalizador social fundamental, suprimindo distinções materiais evidentes no corte e custo dos ternos civis, além de viabilizar a frequência aos trabalhos dos irmãos que se deslocavam diretamente de suas jornadas profanas para os templos nas capitais em expansão.

As duas camadas da indumentária maçônica

Para equacionar a relação entre o traje corporal e as insígnias iniciáticas sem cair em equívocos de interpretação, autoridades ritualísticas contemporâneas, como o consultor litúrgico Pedro Juk, destacam que a permanência em loja repousa sobre a coexistência harmônica de dois planos indumentários complementares:

A Camada Civil de Decôro e Disciplina: Nenhum iniciado ingressa no templo desprovido de vestimenta profana completa, digna e compatível com o decôro social e as leis civis. Essa camada é composta pelo terno escuro tradicional, camisa branca, gravata preta, meias e sapatos pretos ou, nas sessões ordinárias e administrativas em que a legislação das potências regulares expressamente autoriza, pelo balandrau preto comprido, que deve ser rigorosamente talar, alcançando os calcanhares, fechado até o colarinho e isento de adornos profanos.

A Camada Litúrgica Insubstituível: Sobre a vestimenta de corpo devidamente colocada, o obreiro cinge o avental correspondente ao seu grau, acompanhado das luvas brancas e eventuais fitas regimentais. O ensinamento de que o avental é a verdadeira veste do maçom possui valor estritamente espiritual e funcional: indica que, independentemente da qualidade do tecido civil que cobre o homem profano, perante o Altar o obreiro somente é reconhecido em plenas faculdades de trabalho quando investido de seu paramento operário.

Dessa forma, nem o balandrau substitui o avental, nem o avental dispensa a roupa de corpo. O avental nunca é trajado de forma isolada, mas sim sobreposto com reverência à roupa civil ou ao balandrau regulamentar, respeitando o princípio litúrgico de que a ordem requer decôro profano exterior e disciplina operativa interior.

Evolução regulamentar e harmonia nos templos

Nas potências regulares brasileiras, a permissão do balandrau consolidou-se como um costume consuetudinário normatizado pelas respectivas leis orgânicas e regulamentos gerais. Trata-se de uma prerrogativa circunscrita às sessões ordinárias, de instrução e finanças, permanecendo vedada em sessões magnas de iniciação, elevação, exaltação ou posse, cerimônias nas quais a sobriedade do terno escuro ou traje de gala é exigência universal.

O resgate do exemplar de 1834 do Guia dos Maçons Escocezes constitui uma contribuição relevante para a historiografia do REAA no Brasil, descortinando a atmosfera fúnebre e a estética dramática das primeiras câmaras do meio instaladas no país. Contudo, discernir entre o dominó teatral setecentista e o balandrau moderno reafirma a maturidade do estudo maçônico: formas e trajes civis adaptam-se aos séculos, mas o compromisso ético do construtor social permanece inalterado sobre a alvura do seu avental de trabalho.

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Pedro Cordeiro

Jornalista

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