Da Túnica de 1834 ao Balandrau Moderno: A História e os Limites Litúrgicos no REAA
Da Túnica de 1834 ao Balandrau Moderno: A História e os Limites Litúrgicos no REAA
Presente na rotina de trabalhos das oficinas brasileiras, a utilização do balandrau preto suscita dúvidas frequentes entre pesquisadores e membros da Ordem sobre o seu estatuto litúrgico, confrontando prescrições cerimoniais antigas com as normas vigentes nas potências regulares.
O debate ganhou densidade a partir do exame de uma passagem documental preservada no raríssimo Guia dos Maçons Escocezes, impresso no Rio de Janeiro em 1834 pela Typographia Seignot-Plancher, reconhecido pela historiografia maçônica como a primeira tradução em língua portuguesa dos rituais simbólicos do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA).
Na página 74 da obra, que abre as instruções essenciais da Câmara do Meio, o texto descreve a ambientação fúnebre do grau de Mestre e consigna expressamente que o “verdadeiro vestido é uma tunica preta em forma de dominó, chapéo á Henrique IV. e penacho branco”. O mesmo parágrafo determina que o dirigente dos trabalhos se revista de uma capa cerimonial com choradeiras.

“Todos os Mestres devem estar vestidos de preto, com chapéo desabado e fumo comprido; luvas brancas, o avental do gráo e fita azul. O verdadeiro vestido é uma tunica preta em forma de dominó, chapéo á Henrique IV. e penacho branco. O Ven… deve ter mais uma capa grande com choradeiras.”
A leitura descontextualizada desse registro suscita por vezes a ilação de que a túnica talar constituiria a vestimenta primordial e autossuficiente do Mestre Maçom. Contudo, uma análise filológica e histórica detalhada evidencia que o ritual de 1834 traduzia a tradição do Guide des Maçons Écossais, elaborado em Paris no início do século XIX, período no qual a liturgia escocesa utilizava intensa caracterização cenográfica para a dramatização da lenda de Hiram Abif.
O vocábulo utilizado na gênese do rito era o dominó, veste talar ampla com capuz, habitual nas solenidades de luto cortesão europeu e em representações cerimoniais, acompanhada de chapéu de abas desabadas e penacho branco. Tratava-se de um figurino litúrgico e teatral concebido especificamente para a encenação da perda e da consternação na Câmara do Meio, não de uma vestimenta de uso rotineiro nos trabalhos administrativos das oficinas.
A genealogia do balandrau na tradição ibérica e brasileira
Historicamente, o termo balandrau possui raízes no latim tardio e no português medieval, designando uma capa talar fechada na frente, frequentemente dotada de capuz e mangas amplas. Era o traje protetor utilizado por viajantes, confrarias religiosas leigas, magistrados e corporações de ofício durante longos deslocamentos e cerimônias solenes de sepultamento, destinado a resguardar a roupa comum das intempéries da estrada.
Na Maçonaria, pesquisadores como José Castellani documentaram que o balandrau com essas características não fazia parte do cotidiano das lojas da Inglaterra ou da França no século XIX. O termo vernáculo balandrau sequer constava nos primeiros rituais escoceses editados no Brasil. Sua inclusão no vocabulário oficial da ordem brasileira consolidou-se apenas no século XX, sob a influência dos costumes das irmandades leigas do período colonial e imperial e, de forma categórica, na reforma ritualística de 1928 efetuada pelo Supremo Conselho do Grau 33 do REAA, quando se admitiu que, a rigor, o traje dos mestres poderia ser um balandrau preto comprido.
Essa assimilação atendeu a contingências climáticas, geográficas e sociais próprias do Brasil. O balandrau tornou-se um equalizador social fundamental, suprimindo distinções materiais evidentes no corte e custo dos ternos civis, além de viabilizar a frequência aos trabalhos dos irmãos que se deslocavam diretamente de suas jornadas profanas para os templos nas capitais em expansão.
As duas camadas da indumentária maçônica
Para equacionar a relação entre o traje corporal e as insígnias iniciáticas sem cair em equívocos de interpretação, autoridades ritualísticas contemporâneas, como o consultor litúrgico Pedro Juk, destacam que a permanência em loja repousa sobre a coexistência harmônica de dois planos indumentários complementares:
A Camada Civil de Decôro e Disciplina: Nenhum iniciado ingressa no templo desprovido de vestimenta profana completa, digna e compatível com o decôro social e as leis civis. Essa camada é composta pelo terno escuro tradicional, camisa branca, gravata preta, meias e sapatos pretos ou, nas sessões ordinárias e administrativas em que a legislação das potências regulares expressamente autoriza, pelo balandrau preto comprido, que deve ser rigorosamente talar, alcançando os calcanhares, fechado até o colarinho e isento de adornos profanos.
A Camada Litúrgica Insubstituível: Sobre a vestimenta de corpo devidamente colocada, o obreiro cinge o avental correspondente ao seu grau, acompanhado das luvas brancas e eventuais fitas regimentais. O ensinamento de que o avental é a verdadeira veste do maçom possui valor estritamente espiritual e funcional: indica que, independentemente da qualidade do tecido civil que cobre o homem profano, perante o Altar o obreiro somente é reconhecido em plenas faculdades de trabalho quando investido de seu paramento operário.
Dessa forma, nem o balandrau substitui o avental, nem o avental dispensa a roupa de corpo. O avental nunca é trajado de forma isolada, mas sim sobreposto com reverência à roupa civil ou ao balandrau regulamentar, respeitando o princípio litúrgico de que a ordem requer decôro profano exterior e disciplina operativa interior.
Evolução regulamentar e harmonia nos templos
Nas potências regulares brasileiras, a permissão do balandrau consolidou-se como um costume consuetudinário normatizado pelas respectivas leis orgânicas e regulamentos gerais. Trata-se de uma prerrogativa circunscrita às sessões ordinárias, de instrução e finanças, permanecendo vedada em sessões magnas de iniciação, elevação, exaltação ou posse, cerimônias nas quais a sobriedade do terno escuro ou traje de gala é exigência universal.
O resgate do exemplar de 1834 do Guia dos Maçons Escocezes constitui uma contribuição relevante para a historiografia do REAA no Brasil, descortinando a atmosfera fúnebre e a estética dramática das primeiras câmaras do meio instaladas no país. Contudo, discernir entre o dominó teatral setecentista e o balandrau moderno reafirma a maturidade do estudo maçônico: formas e trajes civis adaptam-se aos séculos, mas o compromisso ético do construtor social permanece inalterado sobre a alvura do seu avental de trabalho.
IMAGEM DE CAPA: Gerada por IA

Livro “Retornando ao jardim do Éden – Reencontro com Deus”
Misturando psicanálise, filosofia e uma boa dose de contestação, o autor passa a limpo passagens bíblicas que sustentam séculos de medo. Ele desconstrói de forma crua conceitos como pecado, inferno e salvação, mostrando como a religião muitas vezes distorceu o sagrado para criar rédeas.

