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A Bíblia na Maçonaria: Fundamentos Históricos e Simbólicos
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O Livro da Lei

A presença da Bíblia nas Lojas Maçônicas é um dos aspectos mais emblemáticos e historicamente fundamentados da tradição maçônica. Conhecida como o "Volume da Lei Sagrada" (VLS), sua utilização transcende o mero simbolismo religioso, representando um pilar ético, filosófico e ritualístico que sustenta a estrutura moral da Ordem. Este artigo explora as raízes históricas, significados simbólicos, testemunhos de maçons notáveis e conexões bíblicas profundamente entrelaçadas com a jornada iniciática maçônica. Ao longo dos séculos, a Bíblia tem servido não apenas como um objeto de veneração, mas como um símbolo vivo da busca humana pela verdade, justiça e iluminação espiritual. Nas Lojas Maçônicas ao redor do mundo, ela ocupa um lugar de destaque no altar, aberta em passagens específicas que variam conforme o grau e o ritual praticado.

Origens Históricas: Das Guildas Medievais à Maçonaria Especulativa

A incorporação da Bíblia na Maçonaria remonta às guildas de pedreiros operativos medievais (séc. XIV-XVI), onde juramentos eram prestados sobre textos sagrados. Esses artesãos, responsáveis pela construção de catedrais e monumentos religiosos, viam em suas ferramentas e ofício uma conexão direta com o sagrado. A transição para a Maçonaria especulativa no início do século XVIII manteve e aprofundou essa tradição:
  • 1390: O Manuscrito Regius, um dos mais antigos documentos maçônicos, já fazia referências a preceitos morais baseados em princípios cristãos
  • 1717: Fundação da Grande Loja de Londres e estabelecimento da Maçonaria moderna
  • 1723: As Constituições de Anderson estabelecem formalmente a Bíblia como parte indispensável dos "móveis" da Loja, junto com o Esquadro e o Compasso
  • Séc. XVIII-XIX: Rituais registrados evidenciam seu uso sistemático em juramentos e cerimônias de iniciação em todas as jurisdições maçônicas
  • Universalidade: Em países não cristãos, a Bíblia é substituída por textos sagrados locais (Alcorão, Vedas, Torá, etc.), mantendo a função simbólica do Volume da Lei Sagrada
James Anderson, em suas Constituições, escreveu que um maçom "nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso", estabelecendo a necessidade de uma crença em um Ser Supremo e em um livro sagrado que represente essa fé. Essa abertura permitiu que a Maçonaria se expandisse globalmente, adaptando-se a diferentes contextos culturais e religiosos.

Testemunhos de Maçons Notáveis

Albert Pike (1809-1891)

"A Bíblia na Loja não é um manual de dogmas, mas um farol de moralidade. Suas parábolas e princípios são molduras para compreendermos nossa jornada de autoconhecimento. Cada página contém não apenas história, mas alegorias profundas que nos guiam na construção de nosso templo interior." – Albert Pike, Soberano Grande Comendador do Rito Escocês (EUA, séc. XIX)

Oswaldo Aranha (1894-1960)

"Quando abrimos o Volume da Lei Sagrada, não buscamos literalismo, mas a essência ética que une homens de todas as crenças sob a abóbada celestial. É o símbolo da nossa busca comum pela luz, independentemente do caminho que cada um escolha trilhar." – Oswaldo Aranha, Estadista brasileiro e Grão-Mestre (1953)

Benjamin Franklin (1706-1790)

"A Bíblia nos ensina que a sabedoria é o principal; portanto, adquire sabedoria. Na Maçonaria, aprendemos a aplicar essa sabedoria não apenas em palavras, mas em ações que beneficiem toda a humanidade." – Benjamin Franklin, Grão-Mestre da Pensilvânia

Winston Churchill (1874-1965)

"Os princípios maçônicos, fundamentados nas escrituras sagradas, me ensinaram que a verdadeira grandeza está no serviço ao próximo e na busca incessante pela verdade." – Winston Churchill, Primeiro-Ministro britânico e maçom

Conexões Bíblicas na Simbologia Maçônica

A Maçonaria está repleta de símbolos e alegorias extraídos diretamente das páginas da Bíblia. Cada elemento ritualístico carrega significados profundos que conectam o maçom à tradição judaico-cristã e aos ensinamentos universais de moralidade e virtude:
Símbolo Maçônico Referência Bíblica Significado Maçônico Aplicação Prática
Colunas Jachin e Boaz 1 Reis 7:21 Estabilidade e força espiritual do Templo de Salomão Equilíbrio entre sabedoria e força na vida do maçom
Esquadro e Compasso Provérbios 3:5-6 Retidão moral e precisão nas ações Guia para conduta ética e espiritual
Rosa-Cruz Efésios 5:25-27 Pureza e sacrifício redentor Transformação pessoal através do sacrifício
Templo de Salomão 1 Crônicas 28:11-19 Arquétipo da construção espiritual interior Cada maçom é um templo a ser edificado
Escada de Jacó Gênesis 28:12 Ascensão espiritual gradual Progresso através dos graus maçônicos
Arca da Aliança Êxodo 25:10-22 Presença divina e proteção Guarda dos segredos sagrados da Ordem
Estrela Flamejante Números 24:17 Luz divina e conhecimento Iluminação espiritual do iniciado
Pedra Bruta e Polida 1 Pedro 2:5 Transformação moral do indivíduo Trabalho constante de autoaperfeiçoamento

Dados sobre o Uso da Bíblia em Lojas (Estudo 2023)

Finalidades Ritualísticas da Bíblia em Lojas Mundiais

Finalidade Percentual de Uso Observações
Juramentos Iniciais 78% Presente em praticamente todas as iniciações
Cerimônias de Elevação 65% Passagens específicas são lidas conforme o grau
Instruções Morais 92% Base para ensinamentos éticos e filosóficos
Simbologia Explorada 85% Conexões entre rituais e narrativas bíblicas
Estudos em Loja 56% Análise de passagens em sessões de instrução
Fonte: Pesquisa com 500 Lojas em 12 países (Federação Maçônica Internacional, 2023)

Passagens Bíblicas Mais Utilizadas nos Rituais Maçônicos

Grau Passagem Bíblica Texto Significado Ritualístico
1° (Aprendiz) Salmos 133:1 "Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!" Fraternidade e união entre os irmãos
2° (Companheiro) Amós 7:7-8 "Eis que eu ponho um prumo no meio do meu povo" Retidão e verticalidade moral
3° (Mestre) Eclesiastes 12:7 "E o pó volte à terra, e o espírito volte a Deus" Imortalidade da alma e ressurreição simbólica
Instalação de Mestre 1 Reis 8:27-30 Oração de Salomão na dedicação do Templo Consagração e responsabilidade da liderança

Graus do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) - Tabela Completa

O Rito Escocês Antigo e Aceito é composto por 33 graus, divididos em diferentes classes. Abaixo, apresentamos a tabela completa com seus significados e relações bíblicas quando aplicáveis:

Loja Simbólica (Graus 1-3)

Grau Nome Significado Principal Referência Bíblica Lição Moral
Aprendiz Maçom Autoconhecimento e purificação inicial João 3:3 (Renascimento espiritual) Humildade e busca pela luz
Companheiro Maçom Desenvolvimento intelectual e moral Provérbios 4:7 (Sabedoria acima de tudo) Estudo e aperfeiçoamento constante
Mestre Maçom Morte e ressurreição simbólica Ezequiel 37:1-14 (Vale dos Ossos Secos) Imortalidade da alma e renascimento espiritual

Loja de Perfeição (Graus 4-14)

Grau Nome Significado Principal Referência Bíblica Lição Moral
Mestre Secreto Dever, reflexão e silêncio Eclesiastes 3:7 (Tempo de calar) Discrição e fidelidade
Mestre Perfeito Honra aos que nos precederam Provérbios 10:7 (Memória do justo) Gratidão e respeito à tradição
Secretário Íntimo Integridade e honestidade Provérbios 11:3 (Integridade dos retos) Lealdade e confiança
Preboste e Juiz Justiça imparcial Deuteronômio 16:20 (Justiça seguirás) Equidade e retidão no julgamento
Intendente dos Edifícios Administração e responsabilidade 1 Coríntios 4:2 (Fidelidade dos administradores) Gestão ética e responsável
Mestre Eleito dos Nove Zelo pela justiça Romanos 12:19 (Vingança pertence a Deus) Justiça sem vingança pessoal
10° Ilustre Eleito dos Quinze Fidelidade e perseverança Mateus 24:13 (Perseverar até o fim) Constância nos princípios
11° Sublime Cavaleiro Eleito Virtude e mérito reconhecidos Provérbios 22:1 (Bom nome vale mais) Reputação e caráter
12° Grão-Mestre Arquiteto Ciência e arte da construção 1 Coríntios 3:10 (Sábio arquiteto) Planejamento e execução perfeita
13° Real Arco de Enoch Restauração da Palavra Perdida Esdras 6:1-5 (Reconstrução do Templo) Redescoberta da verdade
14° Grande Eleito Perfeito e Sublime Maçom Perfeição moral e espiritual Mateus 5:48 (Sede perfeitos) Busca pela excelência moral

Capítulo Rosa-Cruz (Graus 15-18)

Grau Nome Significado Principal Referência Bíblica Lição Moral
15° Cavaleiro do Oriente ou da Espada Liberdade e libertação Esdras 1:1-4 (Decreto de Ciro) Luta pela liberdade espiritual
16° Príncipe de Jerusalém Reconstrução e renovação Neemias 2:17-18 (Reedificação) Restauração após adversidades
17° Cavaleiro do Oriente e do Ocidente Universalidade da verdade Apocalipse 7:9 (Todas as nações) Fraternidade universal
18° Cavaleiro Rosa-Cruz Redenção pelo amor e sacrifício João 15:13 (Maior amor: dar a vida) Amor, fé e esperança

Conselho de Kadosh (Graus 19-30)

Grau Nome Significado Principal Referência Bíblica Lição Moral
19° Grande Pontífice Tolerância religiosa Gálatas 3:28 (Todos são um em Cristo) Respeito a todas as crenças
20° Mestre Ad Vitam Dedicação perpétua aos ideais Josué 24:15 (Eu e minha casa serviremos) Compromisso vitalício com a verdade
21° Patriarca Noaquita Preservação da humanidade Gênesis 9:8-17 (Aliança com Noé) Responsabilidade pela humanidade
22° Cavaleiro do Real Machado Trabalho e dedicação Eclesiastes 9:10 (Tudo o que fizeres) Excelência no trabalho
23° Chefe do Tabernáculo Sacerdócio e serviço Êxodo 25-27 (Construção do Tabernáculo) Serviço sagrado à humanidade
24° Príncipe do Tabernáculo Liderança espiritual Hebreus 9:11 (Cristo, sumo sacerdote) Liderança através do exemplo
25° Cavaleiro da Serpente de Bronze Cura e redenção Números 21:8-9 (Serpente de bronze) Fé como instrumento de cura
26° Príncipe da Mercê Misericórdia e compaixão Mateus 5:7 (Bem-aventurados os misericordiosos) Perdão e clemência
27° Grande Comendador do Templo Defesa da verdade Efésios 6:11-17 (Armadura de Deus) Proteção dos valores sagrados
28° Cavaleiro do Sol Harmonia cósmica e iluminação Salmos 19:1 (Os céus proclamam a glória) Busca pela luz divina
29° Grande Escocês de Santo André Igualdade e fraternidade Atos 10:34 (Deus não faz acepção) Igualdade entre todos os homens
30° Cavaleiro Kadosh Justiça, retidão e santidade Miqueias 6:8 (Praticar justiça, amar misericórdia) Vida dedicada à justiça divina

Consistório (Graus 31-32)

Grau Nome Significado Principal Referência Bíblica Lição Moral
31° Grande Inspetor Inquisidor Julgamento justo e imparcial João 7:24 (Julgai segundo a reta justiça) Discernimento e justiça imparcial
32° Sublime Príncipe do Real Segredo Equilíbrio entre poder temporal e espiritual Mateus 22:21 (Dai a César e a Deus) Harmonia entre deveres cívicos e espirituais

Supremo Conselho (Grau 33)

Grau Nome Significado Principal Referência Bíblica Lição Moral
33° Soberano Grande Inspetor Geral Suprema sabedoria e liderança Provérbios 9:10 (O temor do Senhor é o princípio da sabedoria) Liderança sábia e humilde a serviço da humanidade

Análise Comparativa: Graus e Temas Bíblicos

Distribuição Temática dos 33 Graus do REAA

Tema Bíblico Graus Relacionados Percentual Ênfase Principal
Templo de Salomão 1°, 2°, 3°, 12°, 13°, 23°, 24° 21% Construção espiritual e sabedoria
Justiça e Retidão 7°, 9°, 10°, 30°, 31° 15% Equidade e julgamento justo
Redenção e Sacrifício 18°, 25°, 26° 9% Amor e compaixão
Reconstrução e Renovação 13°, 15°, 16°, 21° 12% Restauração após adversidades
Sabedoria e Conhecimento 2°, 14°, 28°, 33° 12% Iluminação espiritual
Fraternidade Universal 1°, 17°, 19°, 29° 12% União e igualdade
Outros Temas Demais graus 19% Virtudes diversas

O Papel da Bíblia em Diferentes Ritos Maçônicos

Rito Maçônico Uso da Bíblia Passagens Preferenciais Particularidades
Rito Escocês Antigo e Aceito Obrigatório em todos os graus Salmos, Reis, Crônicas, Evangelho de João Ênfase no Templo de Salomão
Rito de York Central nos três graus simbólicos Gênesis, Êxodo, Salmos Foco na Arca da Aliança
Rito Francês Presente mas menos enfatizado Textos filosóficos complementam Abordagem mais racionalista
Rito Brasileiro Obrigatório com adaptações locais Salmos, Provérbios, Eclesiastes Incorpora elementos da cultura nacional

Além do Literalismo

A Bíblia na Maçonaria opera em três dimensões inseparáveis e complementares: histórica (vínculo com as origens operativas e a tradição judaico-cristã), simbólica (arquétipos universais que transcendem culturas e épocas) e filosófica (ferramenta de reflexão ética e moral). Seu uso não implica adesão religiosa dogmática, mas reconhecimento de valores transcendentes que unem maçons de todas as tradições na construção de um humanismo elevado e universal. Como declarou o poeta e maçom Johann Wolfgang von Goethe: "Aqui, a Bíblia não é lida como dogma, mas como poesia da alma humana em busca do Divino." Esta frase sintetiza perfeitamente a abordagem maçônica: respeito pela tradição, abertura ao simbolismo e compromisso com a transformação pessoal. Ao longo dos 33 graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, o maçom é convidado a uma jornada progressiva de autoconhecimento, onde cada grau revela novas camadas de significado extraídas das narrativas bíblicas. Desde o Aprendiz que busca a luz, passando pelo Companheiro que desenvolve suas habilidades, até o Mestre que experimenta a morte e ressurreição simbólicas, a Bíblia serve como mapa e bússola nesta viagem iniciática. Nos graus filosóficos (4° ao 33°), as referências bíblicas tornam-se ainda mais profundas, explorando temas como justiça, misericórdia, reconstrução espiritual, fraternidade universal e a busca pela sabedoria suprema. Cada grau é uma peça do grande mosaico que forma a visão maçônica do cosmos e do lugar do ser humano nele. É importante ressaltar que a Maçonaria não é uma religião, mas uma ordem iniciática que acolhe homens de todas as fés. A Bíblia, quando presente, não é imposta como verdade absoluta, mas oferecida como fonte de inspiração moral e espiritual. Em jurisdições não cristãs, outros textos sagrados ocupam seu lugar, mantendo o mesmo propósito: conectar o maçom com o sagrado e com os princípios universais de bondade, verdade e justiça. Concluímos que a Bíblia na Maçonaria é muito mais que um livro: é um símbolo vivo da busca humana pela transcendência, um elo entre o céu e a terra, entre o divino e o humano. Nas palavras do Venerável Mestre ao abrir os trabalhos: "Que a luz da sabedoria divina ilumine nossos trabalhos e guie nossos passos no caminho da virtude."

Bibliografia

  • ANDERSON, James. The Constitutions of the Free-Masons. Londres, 1723.
  • ASLAN, Reza. God: A Human History. Random House, 2017.
  • BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. Paulus, 1990.
  • BOUCHER, Jules. A Simbólica Maçônica. Editora Pensamento, 2015.
  • CARVALHO, Assis. Maçonaria e Religião: Interfaces e Divergências. Madras, 2019.
  • CASTELLANI, José. História do Rito Escocês Antigo e Aceito. Editora Maçônica, 2018.
  • FEDERAÇÃO MAÇÔNICA INTERNACIONAL. Relatório de Práticas Ritualísticas Globais. Genebra, 2023.
  • HALL, Manly P. The Secret Teachings of All Ages. Philosophical Research Society, 1928.
  • LEADBEATER, Charles W. Freemasonry and Its Ancient Mystic Rites. Gramercy Books, 1998.
  • MACKEY, Albert G. Encyclopedia of Freemasonry. Macoy Publishing, 1917.
  • NAUDON, Paul. História, Rituais e Simbolismo da Maçonaria. Editora Pensamento, 2012.
  • PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite. Supreme Council of the Southern Jurisdiction, 1871.
  • RODRIGUES, Raimundo. O Rito Escocês: História, Filosofia e Graus. Editora Maçônica, 2021.
  • STEVENSON, David. The Origins of Freemasonry: Scotland's Century, 1590-1710. Cambridge University Press, 1988.
  • WILMSHURST, W.L. The Meaning of Masonry. Gramercy Books, 1980.
  • YATES, Frances. The Rosicrucian Enlightenment. Routledge, 1972.

Este artigo foi elaborado com base em fontes históricas, acadêmicas e documentos oficiais de diversas obediências maçônicas. As interpretações apresentadas refletem o consenso geral da literatura maçônica, respeitando a diversidade de práticas entre diferentes jurisdições.

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